Category A Voz do Mar

Sim, é uma velha reivindicação. Serve para preservar o legado de uma geração que já não é na grande maioria a nossa, bem como a identidade de um povo, de uma Cidade. Ao mesmo tempo pensamos no futuro.

Muitos poderão pensar que é “só” uma reivindicação de um Clube. Outros irão temer que serve para usufruto exclusivo desse mesmo Clube. Estes egos, e muitos mais. Somente isso, egos.

Reivindicamos sim! Amamos o nosso Clube mas é também uma reivindicação para a Cidade. Aquele local faz parte da nossa história.

Ao mesmo tempo que a Cidade se moderniza e se adequa aos temos modernos e vindouros, deve também alimentar e alicerçar o mais elementar sentimento de pertença que as pessoas sentem em relação à Cidade.

Não falamos de coração, falamos de bom senso!

A Cidade de Matosinhos não é hoje somente uma Cidade de ou para Matosinhenses. O fenómeno e o frenesim de Matosinhos Sul (“Foz Norte”) que invadiu a cidade, esvaneceu o nosso espirito aguerrido. Podemos ser enquanto Cidade muitas coisas, boas coisas, mas também somos “só” um dormitório com um elevado custo por m2.

Como consequência, as novas gerações descendentes de matosinhenses “fogem” para a periferia com o objetivo de se estabelecerem. Afinal de contas, procuram locais mais acessíveis para viver.

O que fica? A perda lenta da identidade de um povo, de uma cidade, de valores intrínsecos às nossas gentes.

Sim, Matosinhos também é isto. Caviar. E devemos ambicionar tornarmo-nos atrativos para que prosperemos. Mas não devemos aspirar somente a cozinha de autor. Centremo-nos nas coisas mais elementares e simples.

Genuinamente somos uma cidade da lata de conserva, do peixe, do mar, das traineiras, dos pescadores e das suas encantadoras esposas. Continuamos aguerridos… mas somos inquestionavelmente diferentes.

O choque geracional é um aspeto critico da identidade (ou falta dela) da nossa Cidade. Hoje filhos e netos dos pescadores resignam-se à seriedade das suas vidas e cada vez mais é evidente o menor sentimento de pertença a uma Cidade e consequentemente ao seu Clube, Leixões. Sim esse Clube.

Contudo, esse Clube continua a ser ainda das poucas instituições do Concelho que alberga os valores e o sentimento do que é ser verdadeiramente Matosinhense – o Orgulho Peixeiro, o Orgulho nas Origens. E consegue transmiti-lo a novas gerações.

Não há que ter vergonha. Hoje a lata de conserva é um prato gourmet.

Nós somos este povo, olhamos para trás com orgulho. Queremos acalentar a nossa história, honrar os nossos pergaminhos. Exultar a memória de grandes Homens, a grande maioria nossos familiares, hoje mais silenciosos, com a pele enrugada e menos exuberantes, mas também por eles lutamos pelo futuro de novas gerações.

Sim, o carácter de ser bom Matosinhense é passado de geração em geração. Através de histórias, através de vivencias, através da educação, do desporto, Instituições, memórias de locais históricos da nossa Cidade.

“Aqui fui feliz”! É assim que um menino de 12 anos hoje dirá sobre “O Novo Santana de Matosinhos” daqui a 30 ou 40 anos. Moldou carácter, formou-se o Homem. Deu atleta? A experiência e a estatística diz-nos que provavelmente não dará atleta profissional. Mas seguramente terá os alicerces certos, para que através do desporto, como complementaridade ao seu processo de crescimento educativo, possa triunfar no mundo da tecnologia, da ciência, engenharia, gestão, artes… o que que ele quiser. Afinal de contas, Matosinhos já alberga (e bem) a nata de algumas Instituições de referência nestas áreas.

Resumindo, ostentará com orgulho o brasão da Cidade e do Clube ao peito. Viverá a Cidade, será conhecedor da sua história… perpetuará este sentimento nos seus descendentes.

O desporto ao serviço de uma Cidade. Não deturpem a visão das coisas.

Não é um Santana para o Leixões, ponto! É um Santana para o Leixões de Matosinhos.

O compromisso de devolver o Santana à Comunidade só faz sentido se o mesmo for pensado de forma séria e estratégica para a Cidade.

Não acreditamos que uma nova “boulevard” que rompa pelo terreno do antigo Campo de Santana seja compatível com um Parque Desportivo capaz de honrar a obra de homenagem a Vítor Oliveira.

É urgente clarificar o que entendem como “Zona Desportiva”. Conceito muito vago onde facilmente a criatividade pode dar asas a obras de autor e a espaços que caiem num vazio, sem valor.

Criando a tal “boulevard” o espaço remanescente será exíguo. É a nossa opinião e é matemática.

Infindáveis soluções que apresentem que não passem por um Parque Desportivo a sério não é suficiente para nós. Como tal, nunca poderemos ficar satisfeitos.

Haja ponderação (e visão) no próximo passo a dar.